21 de out de 2009

Maradona redivivo


Réquiens e réquiens


Quantas vezes faremos réquiens, quantas vezes faremos parte do coro das carpideiras que desde os gregos até hoje nos sertões brasilis cantam as ladainhas da despedida para os que se vão ad aeternum?
Maradona não quer morrer, visto que por intuição os heróis tem uma missão a cumprir, a missão de redimir sua humanidade da vulgaridade, da servidão voluntária, do capachismo. Não quer morrer porque se apercebeu do panteão (que viria a servir como seu palco cênico político) onde o colocaram, ao lado de outros deuses heróicos, visto que Maradona soergueu a dignidade argentina através de sua arte admirada pelo mundo que vai além da Argentina. Soergueu a utopia para um povo pisoteado pelas botas da ditadura, cujas vozes só eram escutadas publicamente na Plaza de Mayo por las madres que lutavam e lutam contra o esquecimento, lugar comum dos covardes, daqueles que desconhecem a dignidade necessária a uma espécie. Maradona perfilou-se ao lado delas, levou suas imagens para o resto do mundo, poeticamente e politicamente. Ele, o suburbano, o que nasceu o útero do gueto periférico de uma Buenos Aires de ares europeizados, de bairros que imitam despudoradamente a arquitetura das grandes cidades européias. Do porteño que exporta a mais delicada de suas expressões d’alma, como um artigo a ser consumido por turistas acidentais ou incidentais. Falo do Tango, falo da MIlonga, falo da poética que atravessa os corpos daqueles que amam, tragicamente amam.
Maradona me lembra um personagem criado pelo Chico Buarque na sua Ópera do Malandro. Falo da Geni e da saga para ela criada pelo autor. A que veio do cais do porto, do gueto e se vê alçada à condição de redentora da cidade. Uma vez heroína, é remetida de volta para o convívio com os outros ratos, os que não usam Armani e que não são embaixadores de nada . Maldita Geni, maldito Maradona, seres que saem do lixo e que expõem as vergonhas dos opressores, nudezas nada sensuais, pornográficas e subservientes. Eles produzem sem o saber a ira dos carrascos neo-nazistas que freqüentam os Cafés aristocráticos, o teatro Colon, os restaurantes sofisticados de Porto Madero e que passeiam com seus cachorros pela Ricoleta. São eles que com suas vozes silentes engrossam o outro coral, normalmente orquestrado pela mídia, pelo sistema de comunicações, que se retroalimentam autofagicamente em suas perversões, em suas inferioridades. Que produzem mitos para destruí-los e comê-los aos nacos, pensando que assim estão matando e comendo o Pai.
Warat, creio que continuaremos a participar dos réquiens, com nossos cânticos, com nossas vozes quase sempre emudecidas pelo modo ensurdecedor que a cidade como um todo clama:
“Joga pedra na Geni/ joga bosta na Geni/ ela é feita para apanhar/ ela é boa de cuspir...” Malditas Genis, malditos Maradonas, malditas madres de La Plaza de Mayo, malditos nós que desconhecemos a vassalidão e por isto condenados a cumprir a pena de Sísifo, ou quem sabe de Antígona.
Portanto, Requiem aeternam dona eis. O véu do silêncio e do esquecimento hoje começa a revestir o corpo do herói, morto em vida para o gáudio dos covardes que passeiam despudoramente pelas calles da vida.

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