23 de out de 2009

sonhar, tão somente sonhar...


Hoje, acordei com fragmentos dos meus sonhos noturnos vagando entre os neurônios. "vamos então interpretar tais sonhos-fragmentos, visto que eles são pistas do meu inconsciente", poderia pensar. Mas, por outro lado, lembrei-me de Benjamin que afirmava que antes de fazermos as abluções (purificar-se com a água, lavar-se antes das orações), devemos deixar que a memória dos sonhos acontecidos produza imagens, simplesmente, sem interpretações possíveis, sem buscar significados ou sentidos. Deixar apenas que a memória enquanto lembrança permita-se seu hiato, antes de transformar-se em memória enquanto esquecimento. Assim eu leio a recomendação benjaminiana: escutar os sonhos, os vislumbrar. Não interpelá-los, não colocá-los diante do tribunal inquisitório da razão que a tudo "explica", que a tudo devora e que depois joga fora como excremento.
Os sonhos, - já afirmava em textos anteriores - ocupam grandes momentos de nossa vida sublunar, nos fazem trilhar caminhos do incompreensível, do inapreensível, do inenarrável. Os sonhos são nossas verdadeiras viagens míticas através de dimensões que nosso corpo físico nunca atravessou, mas que nosso corpo astral atravessa todos os dias de nossas vidas, recolhendo fragmentos, resíduos mais consistentes que insistem em permanecer colados a nós. E assim recolhidos são atirados ao léu, ao acaso das outras dimensões que habitamos oniricamente.Dos sonhos, devemos guardar as experiências vividas no universo de Morpheus, que só tem sentido naquele não lugar, ou seja, onde os sentidos possíveis da memória onírica só serão encontráveis nele mesmo enquanto existenciais, não enquanto fontes de informações para a vida não onírica, a vida consciente como diriam alguns.
Creio que interpretar os sonhos seja como querer interpretar as vivências amorosas, pois no meu entendimento, tais vivências são fantasias, ficções que criamos e que ocupam lugares singulares, dimensões existenciais necessários a nós, humanos. Tais existenciais ligados rizomaticamente a outros existenciais, constituem-se em trajetórias únicas, para cada um de nós, dando forma e sentido à passagem humana neste espaço-tempo sublunar denominado Vida.
Tanto criticamos os antolhos positivistas das ciências que esquecemos dos antolhos que utilizamos para falar dos nossos existenciais, notadamente do tratamento que damos aos vínculos amorosos. Dissecamos os cadáveres amorosos com a mesma volúpia dos anatomistas. Queremos explicar como funcionam os órgãos (saudade, ciúme, carinho, afetos, desejos),como interagem uns com os outros, para assim definirmos suas patologias, seus males, suas fragilidades. Queremos mostrar o sofrimento, a perda irreparável, a dor lancinante que se apodera de nós quando amamos, quando perdemos o outro amoroso. Assim desdobramos a vida em pequenos dramas-comédias, para desta forma esquecermos a tragédia da solidão que nos confina desde sempre neste pequeno planeta que vaga no Cosmos.
Esquecemos que a Vida nos legou os sonhos, o mundo sutil das imagens não elaboradas racionalmente, o mundo onde as emoções conduzem nossas mentes, onde nossas extensões físicas (nossos corpos anatômicos) não existem. Apenas devaneios ausentes do mundo lógico e racional. É provável que ali seja a morada do vinculo amoroso, que deve ser tomado como um existencial indefinível, tal como devem ser os sonhos...

21 de out de 2009

Maradona redivivo


Réquiens e réquiens


Quantas vezes faremos réquiens, quantas vezes faremos parte do coro das carpideiras que desde os gregos até hoje nos sertões brasilis cantam as ladainhas da despedida para os que se vão ad aeternum?
Maradona não quer morrer, visto que por intuição os heróis tem uma missão a cumprir, a missão de redimir sua humanidade da vulgaridade, da servidão voluntária, do capachismo. Não quer morrer porque se apercebeu do panteão (que viria a servir como seu palco cênico político) onde o colocaram, ao lado de outros deuses heróicos, visto que Maradona soergueu a dignidade argentina através de sua arte admirada pelo mundo que vai além da Argentina. Soergueu a utopia para um povo pisoteado pelas botas da ditadura, cujas vozes só eram escutadas publicamente na Plaza de Mayo por las madres que lutavam e lutam contra o esquecimento, lugar comum dos covardes, daqueles que desconhecem a dignidade necessária a uma espécie. Maradona perfilou-se ao lado delas, levou suas imagens para o resto do mundo, poeticamente e politicamente. Ele, o suburbano, o que nasceu o útero do gueto periférico de uma Buenos Aires de ares europeizados, de bairros que imitam despudoradamente a arquitetura das grandes cidades européias. Do porteño que exporta a mais delicada de suas expressões d’alma, como um artigo a ser consumido por turistas acidentais ou incidentais. Falo do Tango, falo da MIlonga, falo da poética que atravessa os corpos daqueles que amam, tragicamente amam.
Maradona me lembra um personagem criado pelo Chico Buarque na sua Ópera do Malandro. Falo da Geni e da saga para ela criada pelo autor. A que veio do cais do porto, do gueto e se vê alçada à condição de redentora da cidade. Uma vez heroína, é remetida de volta para o convívio com os outros ratos, os que não usam Armani e que não são embaixadores de nada . Maldita Geni, maldito Maradona, seres que saem do lixo e que expõem as vergonhas dos opressores, nudezas nada sensuais, pornográficas e subservientes. Eles produzem sem o saber a ira dos carrascos neo-nazistas que freqüentam os Cafés aristocráticos, o teatro Colon, os restaurantes sofisticados de Porto Madero e que passeiam com seus cachorros pela Ricoleta. São eles que com suas vozes silentes engrossam o outro coral, normalmente orquestrado pela mídia, pelo sistema de comunicações, que se retroalimentam autofagicamente em suas perversões, em suas inferioridades. Que produzem mitos para destruí-los e comê-los aos nacos, pensando que assim estão matando e comendo o Pai.
Warat, creio que continuaremos a participar dos réquiens, com nossos cânticos, com nossas vozes quase sempre emudecidas pelo modo ensurdecedor que a cidade como um todo clama:
“Joga pedra na Geni/ joga bosta na Geni/ ela é feita para apanhar/ ela é boa de cuspir...” Malditas Genis, malditos Maradonas, malditas madres de La Plaza de Mayo, malditos nós que desconhecemos a vassalidão e por isto condenados a cumprir a pena de Sísifo, ou quem sabe de Antígona.
Portanto, Requiem aeternam dona eis. O véu do silêncio e do esquecimento hoje começa a revestir o corpo do herói, morto em vida para o gáudio dos covardes que passeiam despudoramente pelas calles da vida.

19 de out de 2009

CARNAVAIS PASSADOS


MEMÓRIAS
Sobre os bastidores do texto

Esta narrativa foi escrita (1992) ao término da criação de um texto elaborado por mim e por Luis Alberto Warat atendendo ao um convite para participarmos de uma coletânea. No entanto, a mesma, sob o título de “Filosofia do Direito: uma introdução crítica”, só foi publicada em 1996. Constitui-se em um pequeno relato de uma experiência única na produção de algo escrito a quatro mãos entre amigos.
Um texto despretensioso produzido ludicamente em torno de conversas agradáveis e algumas indicações bibliográficas que vinham às nossas memórias intempestivamente. Estávamos em São Paulo, numa época em que fazia o doutorado em Filosofia na USP, e o Warat me visitava durante o carnaval daquele ano – ele residia em Florianópolis e lecionava na UFSC. Como é de hábito, sua compulsão em escrever resultou no agradável desiderato de produzirmos algo para a Editora que nos havia sugerido algum tempo atrás: a entrega de um texto sobre filosofia e direito.

A narrativa -
A sala de estudos volta à sua quietude cotidiana. Nas paredes, as estantes permanecem como fieis pilares de sustentação dos livros e da sabedoria: o carpete, agora limpo das cinzas de cigarros e de pedaços picotados de papel, nem mais lembra um campo de batalha – quem sabe de um sambódromo – onde os livros e os papéis antes empilhados desordenadamente sobre a mesa de trabalho desapareceram, uns de volta aos seus lugares e outros repousam no cesto de lixo. A qualidade do ar (segundo parâmetros oficiais da CETESB) da sala volta às suas condições normais, ou seja, fumaça de cigarros acesos em períodos regulares. Os copos sujos de restos de café, de cerveja, de vinho, assim como a tacinha do Underberg, já foram recolhidos para a copa; os ruídos das vozes dos interlocutores já não é mais audível. Assim, certa mesmice se reinstala.
Iniciamos nosso trabalho na sexta feira da semana pré-carnavalesca e o encerramos na quarta-feira de cinzas. Nosso objetivo manifesto: escrever um livro sobre filosofia do direito; nosso objetivo oculto: o de sempre, fazermos um balanço de nossas vidas, para com isto reafirmarmos nossa condição melancólica diante do mundo por nós vivido. Dificil, senão impossível desimpregnar o tecido existencial tão fortemente costurado em nossas individualidades e que traz consigo as tonalidades, as tessituras e estilos típicos dos adeptos do bloco da melancolia (para não esquecermos a ressaca carnavalesca).
Dia a dia nos enfrentamos como bons amigos que somos, na arena dos saberes instituídos e consagrados. Entre consultas bibliográficas e consultas autobiográficas despejávamos no micro uma parafernália de informações. E, tal duas rendeiras, tecíamos o tecido das significações. As idéias que cada um trazia em suas mochilas existenciais, eram atiradas para cima e as que repousassem mansamente na telinha do Solution 16 logo transformavam-se em texto. Quantos mestres-mortos foram solicitados a depor naquele tribunal de saborosos saberes (desculpem a tautologia) desprovido de veredictos. Quantos fantasmas nossos se intrometeram para tão somente cumprirem a função dos fantasmas, ou seja, a de não no deixar dormir embalados pelas silentes vozes dos mestres-mortos da sabedoria.
Ao nos propormos a escrever tal livro, assumimos a idéia como algo distante, como algo a ter densidade “depois”. O que nos estimulava, creio, era o projeto “possivel”: enfim, “algum dia” sentaríamos em qualquer lugar e pela primeira vez, a quatro mãos, poríamos em prática algo que já estava inscrito no tempo, isto era suficiente. Quanto ao tema, acredito que nem pensávamos no mesmo. Poderia ser qualquer um, o que nos interessava era que o projeto estava lançado, passava a habitar nosso imaginário. E como costumamos cultivar fantasias isto nos bastava. Jogar para o papel textos encomendados é o nosso desiderato. Enfim, a atividade acadêmica carece de memória, necessita de matéria prima para a existência de seus acervos. Warat, mais que eu, um escritor compulsivo e portanto profissional; seus textos costumam acontecer quase que cotidianamente. Neste risca-rabisca acontecem livros, artigos, conferências e muitos rabiscos atirados nas cestas de papeis. Da “Ciência Jurídica e seus dois maridos” ao “Amor tomado pelo amor”., muita energia libidinal foi gasta, muitos maços de cigarros foram transformados em cinzas e, muitas tirinhas de papel foram atiradas ao chão – para o desespero dos seus hospedeiros eventuais. Eu, o disciplinado aluno, que produz textos para cumprir rituais acadêmicos e, às vezes escrivinhador compulsivo de crônicas do cotidiano, convém salientar, escritas normalmente como se fossem correspondências para amigos, que raramente as recebem! Com estas específicas biografias de escribas, aceitamos o projeto comum, o “projeto”, apenas.
Mas, eis que acontece o período dedicado ao reinado de Momo, e como o carnaval não passa desapercebidamente, nem para os foliões aposentados, como é o meu caso, nem para aquele que dele se aposentaram sem ao menos tê-lo vivido. Como é o caso do porteño Warat, estava dada a ocasião para a concretização do “projeto”; o evanescente ia ter o seu momento de densidade. Sob a benção dos foliões da ativa – que nem sabem de nossas existências – aceitamos o início da nossa folia: a produção de um texto encomendado, datado e com todos os salameleques que requer sua feitura. Enfim, fantasiado de livro. E, tal como qualquer prévia carnavalesca, foi anunciado antes do carnaval oficial: sexta-feira, um dia antes da posse de Momo. Também, como bom texto de carnaval, chegou ao seu termo numa quarta-feira de cinzas, com direito a ressaca, Sonrisal, Alka-Seltzer e gelo na testa.
Esta é uma parte da estória de um samba enredo a ser cantado em algumas passarelas da academia nos próximos carnavais.

7 de out de 2009


”Requiem aeternam dona eis”[i]: o repouso de Macabéa

Albano Marcos Bastos Pêpe

“... a razão não é a essência do universo, nem a essência de Deus. Ao contrário e de forma bem questionável, a razão parece ser a essência do pensamento humano, pior ainda, a essência de apenas uma tendência do pensamento humano. A razão é a essência de um certo domínio do pensamento humano”
J. M. Coetzee[1]

Pensar, não como exercício teórico-científico, mas me deixando levar pelo texto que passo a tecer tal fiandeira, traçando os caminhos da narrativa, que Walter Benjamin[2] expõe como “a experiência que passa de pessoa a pessoa”. Tendo como fonte os relatos que escutei dos personagens de Clarice, da fala poética de Álvaro de Campos e de minhas experiências, abandonando a mera informação expositiva em nome de uma ação livre que busca a autonomia de um relato muito mais amplo que uma mera e convencional comunicação. Para tanto, tenho como fio condutor um texto, um relato literário, despojado de qualquer pretensão cientificista. Eis o desiderato que proponho frente uma comunidade que debate-se desde sempre no interior da discussão acadêmica atual e que fica sem saber o que fazer com paradigmas considerados por muitos especialistas como mortos e devidamente enterrados. Nada mais convencional, já que vivemos o pós isto, o pós aquilo e tantas outras firulas que retroalimentam o modismo discursivo dos convescotes acadêmicos.
O pensador francês Bruno Latour[3], em ensaio denominado “Jamais fomos modernos”, faz-me recordar um legado dos modernos que apresenta o conhecimento concebido a partir do poder científico encarregado de representar as coisas e do poder político encarregado de representar os sujeitos. Minha narrativa não se pretende representação, antes de tudo apresentação e, portanto me sinto à vontade para no uso do lógos, da Palavra, e tendo acesso à linguagem, assim como todos os presentes, relatar esta estória sem o uso de categorias que servem à representação científica tipo verdadeiro-falso ou racional-irracional e sem a pretensão de que esta fala se manifeste como transgressora ou marginal aos meus interlocutores. A quero como fruição, como devir, como condenação que nossa espécie trás inscrita em sua singularidade afirmada como a do homo sapiens sapiens.
Dotado de linguagem, este ser-aí (dasein) - que todos somos -, produz memória, lembranças de eventos passados, de eventos vividos no presente (já passado) e de eventos a ser vividos no futuro como jogos de projeções frente sua finitude. Diria de passagem, que esta narrativa prende-se fundamentalmente nesta típica marca da condição humana: a da produção de memórias que unem indelevelmente a vida e a morte, e que, conseqüentemente busca sentido para a existência, face um pequeno “defeito de fabricação” estabelecido pelo Arquiteto do Universo, que impossibilita a imortalidade deste ser enquanto ente finito.
Assim, a memória inscreve-se nas formações culturais da humanidade enquanto história. Nesta, os eventos produzidos são organizados cronologicamente enquanto presente, passado e futuro. Os saberes são naturais, sagrados, laicos e científicos. O tempo é periodizado enquanto antigo, medieval, moderno e pós qualquer coisa. A vida sofre um processo de ordenação. A Palavra é religiosa, científica, poética, literária ou vulgar. A realidade é fruto de tais partições e a verdade... Bem, a verdade é uma outra questão reivindicada e apropriada vias de regra pelos detentores do “saber, poder, lei”. Quanto ao real, todos nós somos herdeiros do legado platônico e aprendemos desde sempre que a ele não temos acesso, salvo por alguns lapsos de memória, logo relegados pelos habitantes da Caverna. Aprendemos com os doutos que a realidade se constitui de um esforço sobre-humano de nos aproximarmos do real, quem sabe mero factóide, ou seja, um fato, verdadeiro ou não, a nos animar na insana busca de sentido manifesta pela Palavra travestida de científica na academia, de religiosa na igreja, de senso comum na aldeia. Dela retiramos teorias, atos de fé e convicções ditas pessoais e coletivas, uma torre de Babel, como exclama Álvaro de Campos o Poeta, ante tal bagunça:
“ Deuses, forças, almas de ciência ou fé/ Eh! Tanta explicação que nada explica!/ Estou sentado no cais, numa barrica,/ E não compreendo mais do que de pé”.
[4]Álvaro de Campos
No entanto, desprovido de memória segue o Cosmos, infinito, linear, sendo, desde sempre. Nele, nos encontramos sob a égide de um tempo sublunar e nele, os outros seres vivos, que à diferença de nós humanos vivem o tempo cósmico, sem passado, sem presente, sem futuro; apenas o existir e o deixar de existir, desde sempre, para sempre. Neles, a vida e a morte seguem os passos da existência cósmica. Neles, a memória é simplesmente genética, produtora dos instintos que garantem o viver no habitat natural, produzindo mutações evolucionárias que se dão eternamente, pois este parece ser o sentido maior da vida. Nus, desde sempre despidos, pois nunca vestidos (revestidos) de carapaças os outros seres vivos nascem, vivem e morrem, simplesmente.
Mas, este não é o destino de Macabéa, vivente humana que herda o legado do tempo sublunar. Existe para a vida, pensada para a morte, para sua “hora da estrela”.Portanto, viva Macabéa, para que seus sentidos se apropriem da doce despedida do ser que sabe-se ente, vivente, apenas. Viva Macabéa, na certeza de sua incerteza de ser, na sua mediocridade habitual, habitante de um mundo que apenas te obriga a respirar, recolhendo tal Penia as migalhas que mitigam tua fome tão ínfima, tão pobre de desejos e de falta de sentido. Não tens a ciência, não tens a fé, não tens a ideologia e tua esperança nem esperança o é, não tens da Palavra nem a redenção. Estas são palavras que apreendo no escrevinhar que te desnuda, desde sempre vestida. Ao retirar o véu que a oculta, alethéia como diriam os filósofos gregos, Clarice Lispector, por nunca saber-se plenamente nua veste-se Macabéa, e a ti impõe o papel de conduzir o ofertório da despedida. Diante de da tal cerimonial, o Poeta Álvaro faz a celebração:
“Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou./ Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. /Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade/ Em mim (...)”
Álvaro de Campos
Um conto, uma narrativa, frágil castelo de letras... Num sutil adeus de alguém que escolheu como reduto de sua breve existência, a escrita. Sua forma maior de ser no mundo. Despedida com seu estilo de existência: através de personagens, que, aos fragmentos deixam entrever o ser único que se expõe timidamente.
Como elaborar seu próprio réquiem sem resvalar em lugares comuns e pendulares, que vão do elogio exacerbado à comiseração dos personagens criados, que neste momento emergem para depor ante a finitude de seu criador. Réquiem como ofício da despedida, do abandono, do abandonar-se ao Nada, preenchendo as pequenas lacunas, os incômodos vazios que desde sempre anunciam da finita vida sua totalidade, indo ao encontro de sua plenitude, sem lacunas, sem vazios (sempre pensamos que há espaços a serem preenchidos), enfim, o Caos.Quando a linguagem é nossa condenação e liberdade, a vivemos, como única ancora possível para a existência, para um existir sem sentido, mas que exige sentido, algo como o que justifique não a vida, mas tão somente “a véspera do morrer”.
Clarice escolhe seus personas, ou seja, seus personagens. Aqueles que farão companhia para mergulhar definitivamente na sua morte que se anuncia a partir de Macabéa e daqueles que partilham sua breve vida. Escudada em um heterônomo qualquer, - Rodrigo S.M. -, elabora seu réquiem, na busca de sentido ao sem sentido, desvelando ao mesmo tempo, dialeticamente, o sem sentido do sentido de sua existência singular que se esvai incompreensivelmente. Daí, como ela mesma deixa passar: “A morte é um encontro consigo... O melhor negócio é ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso”. Já que seus personagens, fragmentários e fragmentados não preenchem as lacunas de um existir que nunca encontra plenitude neles e que logo anunciados desmancham-se no ar... “quem sou, não sei, quem fui, morri-o”, diria Pessoa aos meus ouvidos, nestes entreveros de um mim consigo mesmo. E Álvaro acrescenta:
“Quem me vendeu ao Destino?/Quem me trocou por mim?”
Álvaro de Campos
Busco dialogar com Clarice através deste réquiem, batizado, - assim o recepciono, - como “A hora da estrela”. Eu, em completo desamparo meu tentando despir-me das armas conceituais desde sempre a mim ofertadas, tomando as palavras como bom senso, para uma Comunicação numa comunidade que trata do direito, da psicanálise, da arte e quiçá da filosofia. Tento desnudar-me daquilo que me reveste, veste de novo, do novo e do antigo. Mas tal desnudamento nunca se realiza plenamente, estou sempre vestido pela Palavra, pelo lógos, marca da espécie que me designa. Sou refém pela fala, pela escrita, pelo texto, por todas as metalinguagens que tentam ferir o real, sou criador de mundos, falíveis, finitos, assim vivo as realidades que se dizem reais. Mas, como deixar-me levar pelo suave embalo de “uma crônica de uma morte anunciada” sem transgredir a pureza do texto em sua literalidade. Como sentar-me ao lado da moribunda e simplesmente recepcioná-la na sua breve existência que, diante de mim - também moribundo - se esvai. Eis mais uma pergunta que se me apresenta, cuja resposta possível ela, a pergunta, traz em suas entranhas, tão estranha ao meu corpo que a gesta à espera de um parir morrendo, de um nascer como uma estrela.
Mansamente, apenas sentindo o movimento da natureza que me envolve nesta solidão serrana, abro os sentidos e a morada (oikós) para recebê-la, Macabéa, a ti e àqueles cujas existências dependem da tua existência, nesta rápida saga que nomeamos como vida. Os recebo, enquanto arautos, anunciadores, clarividentes, enquanto desdobramentos da Clarice que se anuncia Rodrigo, pois Macabéa... Como é difícil falar na morte na primeira pessoa do singular.
Macabéa, me remetes a idéia das origens das espécies, mais especificamente à origem da espécie a qual pertencemos, visto sermos o padrão único do homo sapiens sapiens. Em nossa evolução natural, vivemos desprovidos da capacidade de nos orientarmos pelos instintos, tal como as demais espécies, que vivem, simplesmente vivem e morrem, cumprindo assim o ciclo daqueles que nascem neste planeta, em Gaia, sua única e possível morada. Sem adentrarmos em teses cientificas e acadêmicas, a existência e evolução da espécie humana se dá, à diferença das outras espécies a partir da linguagem, do lógos, da necessidade absoluta da produção de sentido para sua existência. Desde as coisas mais elementares, como proteger-se das intempéries naturais, como a busca de alimentos, como a reprodução, com as crias,como a insociável sociabilidade com os demais membros da comunidade, da tribo, do clã, enfim dos anatomicamente iguais.
Assim como os membros das demais espécies se constituíram em grupos da mesma espécie (as matilhas, as manadas, os cardumes) a nossa, também se fez comunitária, tribal, com a sutil diferença de sermos capazes de criar coletivamente memória das experiências humanas vividas, atribuindo às mesmas, sentido temporal: presente, passado e futuro. Assim apreendemos o tempo como algo que está em nós, que nos habita, como um para além face ao tempo natural que acontece, que simplesmente acontece, apenas existenciado pelas demais formas de vida, o tempo cósmico, imprescritível.
Tal assunção de algum modo nos desvincula do tempo cósmico, mas, contraditoriamente a ele nos mantém aprisionado, visto que somos apenas uma espécie dentre outras que habitam physis, a Natureza. Neste processo contraditório está, talvez, uma de nossas grandezas e miséria simultâneamente: descobrimos a finitude, somos mortais em um Universo “que jamais começou” mas que gesta em seu ventre seres mortais e, um único ser que se pensa em sua infinita finitude: o humano. Na quebra deste fino tecido que nos distancia das demais espécies, nos compreendemos como seres para a morte, sendo ela expressão maior do fim, condição de sentido primordial para nos construirmos enquanto seres para a vida; lembra-me Heidegger, uma entre tantas vozes que em mim, teima em não calar . Seres para a vida, seres para a morte, questões que fazem mais uma vez, o Poeta pensar em voz alta:
“(...) nunca propriamente reparei/ Se na verdade sinto o que sinto. Eu/Serei tal qual pareço em mim?/ Serei Tal qual me julgo verdadeiramente?/ Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,/Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.”
Álvaro de Campos
Digo estas coisas Macabéa, pensando numa resposta procurada por Clarice enquanto Rogério, para seu eu, seu “mim”, desdobrado em tantos outros “mins” necessários e que faz este desabafo: “pois não agüento ser apenas mim”. Falo a ti, não para te dar a resposta, pois não a tenho (quem a tem?), mas para ao seu lado procurar o sentido da pergunta. E a pergunta se pergunta pelo sentido da Vida. E é para isto que você existe Macabéa, para conter em teu mirrado corpo nordestino os tentáculos da pergunta de sua criadora e criatura. A existência que lhe foi designada traz consigo o fardo das coisas finitas que pesam dolorosamente e que um dia, sem mais nem menos, finda. Clarice, por amor, projetou em você a criatura que suportaria o peso e a leveza do fim da vida, da sua vida.
A Palavra constituiu-se no útero que te germinou Macabéa. Foi neste lugar fecundo que tua existência explodiu, veio ao mundo intimista de uma “criadora de mundos”, tão somente para cumprir uma missão, delicada, frágil e simples. Apresentando assim a vida, como ela o é, plenamente, ao extinguir-se em sua singularidade como um clarão derradeiro na hora da estrela.
Clarice te anuncia ambiguamente: “Eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim sua existência. Ela não era nem de longe débil mental, era a mercê e crente como uma idiota. A moça que pelo menos comida não mendigava, havia toda uma subclasse de gente mais perdida e com fome. Só eu a amo” (grifo meu). És, portanto, a filha pródiga, a quem foi dada, dentre tantos personagens dos mundos de Clarice, o papel da fiandeira, aquela que tece com a Palavra a delicada teia que anuncia o fim, o fim desta mesma Palavra de um ente que vive a eterna finitude de ser. Solidariamente Álvaro acrescenta:
“Há um amargo de boca na minha alma:/É que, no fim das contas/,Não estou pensando em nada, Mas realmente em nada/, Em nada...”
Álvaro de Campos
Parece-me que a eternidade finita da Palavra tem sua duração enquanto ressoa em um outro. Reverbera, ecoa, procura sentido, mas ao mesmo tempo dá sentido à perdição daqueles entes que procuram ser, embora que o sejam, desde sempre. A Palavra que se esgueira pelas esquinas, pelos becos fétidos, pelas vielas do “cais imundo”, pelos paralelepípedos da Rua Acre. Pelos diálogos-monólogos com a rádio Relógio (os locutores invisíveis), com Olímpico (seu namorado?), com seu Raimundo (o chefe), com as quatro Marias (viventes no mesmo quarto), com Glória (a amiga?), com madame Carlota de tantos adjetivos: caída na vida, mulher-dama, cartomante, quem sabe oráculo!
Palavra que toma forma e conteúdo, esboçando mundos paralelos através de tantos personagens, diante da minúscula Macabéa. Criando atmosferas suburbanas que ela dividia com os gordos ratos e tais e quais personagens, logo ela, confessa Clarice: “Maca (que) jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra”. Mas, a Palavra, em sua gênese a ninguém poupa, nos sufoca, nos vomita e nos faz vomitá-la. E, conforme Álvaro, “A vida... branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar”. Neste furacão voraz onde o sentido muito das vezes perde-se no não-sentido, ecoa um grito de desespero e confissão: “quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho”, dirá Clarice. Como e quando estiver sozinho, sem ser atravessado, violentado pela Palavra, eterna nomeadora de todos os nossos momentos. Como estar sozinho se sou legatário da memória da Palavra, desde sempre, se o legado da espécie implica em dar sentido, sempre, mesmo que seja, ao sempre sem sentido . Eis a existência que, exemplarmente, nos abriga e obriga a sermos “seres para a morte”.
A hora da estrela, o momento de ser verdadeiro, único, insiste a autora: “Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante da glória de cada um e é quando no canto coral se ouvem agudos sibilantes”. Eis o momento em que a Palavra perde sua força e divindade: “eu sou o Verbo”, passa a ser um enunciado pleno de vazios: morto, não mais sou capturado pelas palavras. Não há mais momentos, não há mais presente, nem passado, nem futuro, pois assim reafirmará Clarice: “o dia de hoje, o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento”.
Não morres sozinha Macabéa, neste fiapo de consciência em que te agarraste e que repetias, como a nos convocar a sermos um tu: ”eu sou, eu sou”, buscando “no próprio profundo e negro âmago de si mesma (...) o abraço da morte”. Pois neste instante, neste átimo de tempo sem tempo, o Poeta se debruça e fala suave e amorosamente à tua alma:
“Estou morto, de tédio também/ eu bato a rir, com a cabeça nos astros/ Como se desse com ela num arco de brincadeira/ Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,/ Eu, assombroso e desumano,/ Indistinto a esfinges claras,/ Vou embrulhar-me em estrelas/E vou usar o Sol como chapéu de coco/ Neste grande carnaval do depois de morrer”.
Álvaro de Campos.
Encontrastes enfim Macabéa, alguém, além de ti mesma criatura e criadora, que te ama infinitamente, neste momento do ser que se ausenta do ente para toda a eternidade.

No silêncio desta noite-madrugada, silêncio que marca a ausência do ruído das vozes humanas, silêncio do coaxar dos sapos, do canto dos grilos, dos latidos dos cachorros que passam, procuro, ao abandono da Palavra pensar a sinfonia desde sempre executada pelos corpos celestes, já inaudíveis para nós seres humanos incapazes de nos ouvirmos enquanto seres naturais.
E, se o “silêncio é tal que nem o pensamento pensa”, como este narrador escutou de Clarice, o corpo de Macabéa ali na sarjeta, colado no capim, abraçada em si mesma, numa carícia derradeira, sentiu-se por inteiro, plena, feliz, única, sentindo pela primeira e última vez sua nudez, a nudez do fim da Palavra... Eis o silêncio, tão agonicamente esperado, por ela, por nós, por cada um de nós... Adeus Macabéia, ou melhor: até breve...
Lá fora, tingidas de amarelo-ouro as folhas dos plátanos soltas, livres navegam pelo cósmico Caos. Levadas pelo vento e, na simples despedida, reverenciam os dias outonais...
[1] J. M. Coetzee. A VIDA DOS ANIMAIS; Tradução de José Rubens Siqueira, Companhia das Letras. São Paulo. 2002.
[2] BENJAMIN, Walter. MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA; Tradução de Sergio Paulo Rouanet Editora Brasiliense. São Paulo. 1987.
[3] LATOUR, Pierre. JAMAIS FOMOS MODERNOS; Tradução de Carlos Irineu da Costa, Editora 34. Rio de Janeiro. 1994 (quarta reimpressão, 2008).
[4] Pessoa, Fernando. Poemas de Álvaro de Campos; obra poética IV, Editora LP&M: Porto Alegre, 2008. Todas as falas de Álvaro de Campos descritas no texto estão contidas nesta obra.
[i] “Dá-lhes o repouso eterno”

5 de out de 2009


O amor, uma experiência... da linguagem
PARTE IV


Albano Marcos Bastos Pêpe

Tomar o amor na perspectiva de uma experiência da linguagem, como algo em que o homo sapiens sapiens é colocado ao longo de sua evolução por se constituir em voz (phoné) e linguagem (lógos), é a intenctio obliquea da narrativa que começo a tecer. Deslocar os fios que conduziram as últimas reflexões “amorosas” sem, no entanto, perder o sentido teleológico do pensamento, pode ser para mim, estender os rizomas até o alcance do que pode ser nominado como “paixão”.
Se o amor pode ser compreendido como expressão e superação do experimentum linguae com vistas a um modo de ser no mundo, ao possibilitar o encontro do “um” o “outro”, através de diversas manifestações (amor conjugal, amor ao amigo, amor pela espécie), tal não ocorre no meu entendimento, com a paixão. Uma larga tradição ocidental designa a mesma como uma das manifestações do amor. Um sentimento com gradações que iriam da ternura ao arrebatamento, do suave ao ensandecido; tomam-na também como um sentimento intenso, mas passageiro, como um sentir profundo mas ao mesmo tempo fugaz, nada parecido com as demais experiências amorosas, mas considerada uma de suas modalidades, um amor-paixão ou então uma paixão amorosa.
Experimentando da linguagem a palavra “paixão”, percebo que a mesma traz consigo sutilezas não encontráveis no ideal amoroso. Este me remete a um plural de significações que tem a ver como vínculos estáveis, equilibrados, que de algum modo garantem a superação da “insociabilidade natural” que fala Kant; assim como do surgimento da filia, da amizade entre os homens, entre os cônjuges e seus descendentes, como fala Aristóteles. Algo que tem a ver com a constituição da polis, com a evolução dos princípios éticos, dos valores morais, da segurança da comunidade, enquanto o amor pelo outro que nem chego a conhecer, mas que devo amá-lo enquanto espécie. Aquela, a paixão, me remete a perda de sentido de tais pilares da sociabilidade. Acontece como algo completamente inusitado, sem palavras que justifiquem tal arrebatamento que me invade imperiosamente, como se apenas existissem “eu” e o objeto da paixão, que eu desejo comer, devorar, pois já estou sendo devorado por ele, que surge sem nenhuma idealização minha, como um nada que a tudo contêm. Eros e thanatos unem-se de tal forma neste sentimento, que nem o instinto natural de sobrevivência, nem a atitude racional, conseguem conter a lascívia que domina o corpo.
A paixão é hybris, desmesura, acometimento. Incorpora-se enquanto totalidade, alcançando os sentidos, os pensamentos e impondo um desejar que aponta para o gozo do abandonar-se na sua experiência; é lúdica e mortal. Quem a vivencia embriaga-se com as poções que só aos deuses é permitido ingerir. Experiência que relatada, só emite balbucios que denunciam uma fase prélinguística do humano. Sentimento de infinitude, enquanto momento atemporal e cósmico; de esquecimento da morais convencionais que traz consigo um estar acima do bem e do mal; de liberdade das amarras da racionalização e incorporando assim a condenação ad aeternum do libertino, naquele momento único e indescritível.