24 de set de 2009

Um prefácio compartilhado

Albano Marcos Bastos Pêpe


Pensemos as rotas e os roteiros “estabelecidos” para uma turnê de um circo mambembe medieval que se transporta para a modernidade, passando por uma dessas dobras pensadas pela física. Seu roteirista, também autor, ator, diretor, mágico, malabarista, palhaço e bailarino, atende por Luis Alberto Warat, o que faz deste nome batismal, referência ante os diversos personas que mimeticamente pululam no picadeiro da sua escrita. Convêm salientar que esta troupe de um, vive em uma nave denominada Gramma. Quanto aos espetáculos com suas fantasias, suas magias e malabarismos, podem ser vistos/vividos/lidos quando o circo promove mais uma apresentação e os cartazes anunciam o lançamento de mais uma temporada. Mas nunca estranhem se o próprio Warat for encontrado nos cabarés, cafés e tabernas fazendo pré-lançamentos de obras nunca escritas e de outras há muito escritas, nos rincões deste mundo sem fim.
Seu novo espetáculo chama-se “O Materialismo Mágico”, que promete algumas atrações coadjuvadas por Breton, Artaud, Cortazar, Lispector, Borges, Sartre, Barthes e tantas outras “estrelas” do seu elenco de convidados.
Prefiro chamar este novo livro de narrativa. Um relato que traz a marca inconfundível da escrita waratiana. Sua obra alcança os mais diversos matizes que a reflexão levada pela inquietude contempla. É um texto filosófico, visto que é uma contemplação caracterizada por um dizer transcendental que toca os limites de um experimentum linguae, da experiência da linguagem com ela mesma. Sendo ao mesmo tempo o lugar de uma escuta sensível e comprometida com as vivências. É um texto de um Filósofo e não de um historiador da Filosofia, que é o formato imposto pelas faculdades de Filosofia aos seus incautos alunos. Seus interlocutores, pensadores que o acompanham ao longo de sua vida, não são datados simplesmente, pois não fazem parte, enquanto interlocutores, de uma prova da sua erudição. São tão somente “estrelas” postas no plano de seu pensamento como referências de falas que se aproximam e que gestam diálogos, diatribes de amigos.
Em suas viagens utiliza o astrolábio de Hiparco o grego, para não perder-se em navegações orientadas por modernos mapas de navegação. Atravessa os oceanos da linguagem, tendo como instrumentos, o primitivo instrumento e sua condição desejante. Ele quer o desvelamento do signo que teima em permanecer atrelado a relações formais da moderna razão ocidental. Da razão racionalizante que impossibilita o acesso ao plano real, ao plano do corpo enquanto morada e sentido. Quer que a palavra se revele, se desnude e recupere sua condição aurática,manifesta na alquimia, na carnavalização, no fantástico. Procura intuitivamente, aquilo que Heidegger chamava de ilatência, ou seja, a desocultação, o não oculto que a palavra traz consigo, para com isso mostrar que podemos efetivamente nos ver, enquanto construção permanente, enquanto dúvida, incerteza e devir diante de um Cosmos infinito ante seres finitos que somos.
O surrealismo é uma das embarcações que Warat utiliza para buscar nos signos para que eles se liberem daquilo que lhes é imposto ao significar. Talvez como a experiência de maravilhar-se com a existência do mundo como um milagre, como o diria Wittgenstein. Para Warat, assim como para os demais surrealistas, as palavras assim como a arte não existem para apaziguar, muito pelo contrário, existem para vivenciarmos o que está reprimido, apresentar o conflito provocado pelas enunciações, pelas definições que tão somente servem para castrar o desejante que há em cada um.
Contrapondo-se ao trivial dos saberes instituídos e consagrados como verdadeiros, o texto waratiano envereda pelas trilhas do fantástico que traz consigo o onírico, o erótico, a alquimia. Algo como uma hermenêutica dos devires, dos movimentos que desocultam mas que não se deixam prender em definições, em formulas definitivas. Ele, ao seu modo, aventura-se na busca de uma pedagogia da imaginação criadora, de uma pedagogia-imaginação que não se prenda na busca de uma verdade que já está fossilizada. As pedagogias que implantam próteses que impedem o livre caminhar devem ser substituídas pela produção da incerterza, da dúvida que impulsiona para os caminhos que devem ser trilhados com os próprios pés. Como diziam os povos Guaranis: nimuendaju, ensinar a caminhar com os próprios pés.
Ensina-nos finalmente o Warat, que devemos estar atentos à linguagem poética que nos atravessa e que fazemos questão de esquecer, porque ela não tem compromissos com a produção das verdades científicas, porque ela não produz tecnologias, porque ela não nos coloca adequadamente no mercado de trabalho. E isto é razoável, visto que a poesia tão somente pode nos mostrar quem somos, uns e outros, tão próximos e tão distantes quando nos tratamos maquinicamente. Esta é uma boa encruzilhada para decidirmos os rumos que queremos, que podemos querer e que sabemos o que podemos querer.
Nesta sua generosidade mambembe, em sua morada planetária, expressa por um corpo que não se esquiva das marcas de tantas batalhas, ele, às vezes encontra guarida nas tabernas medievais que sua memória ancestral traz consigo, convivendo com os vates, com os loucos, com os desgarrados; às vezes nos cafés, onde deposita suas crenças, as mais simples como as das crianças e, as mais terríveis como a de um oráculo que despeja suas metáforas que vaticinam novas eras; às vezes nos cabarés ao lado de Macunaíma e Robespierre servindo e sorvendo delicadamente Vino & Sofia e, às vezes na oika onde brinca despreocupadamente criança, ao lado de outra criança: sua neta... Em cada uma destas paradas, deposita seu amor pela espécie. Sua filia, amizade amorosa sem restrições, que também é depositada nesta narrativa que humildemente apresento ao lado de Leonel Severo Rocha.
Enfim, aguardemos o próximo momento “espetacular”,ou seja, o momento não previsível de uma nova composição alquímica que seja transformada em mais uma narrativa deste mago que persegue a criação do instante em que a palavra seja acompanhada da sua ilatencia.

2 comentários:

  1. Daniel Fioreze (Boy)25 de setembro de 2009 11:34

    Só a natureza é divina, e ela não é divina...

    Se às vezes falo dela como um ente
    É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens,
    Que dá personalidade às coisas,
    E impõe nome às coisas.

    Mas as coisas não têm nome ou personalidade:
    Existem, e o céu é grande e a terra é larga,
    E o nosso coração do tamanho de um punho fechado...

    Bendito seja eu por tudo quanto não sei.
    É isso tudo que verdadeiramente sou.
    Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.

    Alberto Caeiro.

    O que sei das palavras senão suas belezas e desgraças. Confesso que sou mais íntimo de suas desgraças, não que eu queira, mas acontece que sou. Desgraça para aqueles que tornam tudo um dizível, mas morrem sem saber. Belas para aqueles que compreendem que às vezes as palavras dizem nada ou quando dizem, dizem em silêncio. O que seria da música sem o silêncio? Talvez seja o silêncio o ruído cósmico do dizer ou, apenas música. Palavras sem amarras são aquelas que guiam o andante infinitamente em sua compreensão. Na sua mania tola de viver, esse transeunte das calçadas das gentes torna a diferença um dizível e faz dela condição de possibilidade para qualquer por vir amoroso: e se fodem por isso. Tomei a liberdade de dizer “fodem” ao achar num dicionário qualquer, que não um dicionário medíocre, sua definição, ou seja, legitimado pela desgraça.

    Eles, os transeuntes da biologia urbana, glorificam o nada, dizem amém e pedem por perdão. Usam as palavras para tal. Será que o grande deus é poliglota? Não entendo aqueles que não entendem o dizer do silêncio. Não se trata de dom nem de genialidade, mas de desvelar aquilo que somos: natureza. Impossível não se contaminar com Warat e Albano. Sorte nossa - nascente do lago, pelo infortúnio de ter conhecido tais oráculos e que a tempo nos mostraram a desgraça que estávamos condenados ao não percebê-la. Sorte a minha por ter bons amigos para que a convenção não me condene como louco, mas agora, entre eles, “somos sábios”. Sábios por ouvir dos pássaros aquilo que hoje não se ouve de humanos. Sábios por saber que não somos humanos – esse humano demasiado que extasiam e que insistem em nós dizer como tal, como isso ou aquilo outro. Sinceramente, não acho que sejamos sábios. Sábio é um dizível e aqui estou dizendo nada, sem sujeito ou objeto. Que pena ser uma incoerência fundar a faculdade do indizível, assim como a faculdade do nada e do Nietzsche. A linguagem essa, a do indizível, a do sentido cósmico, se dá pelo rumor, por debaixo das vias ordinárias do que é dito, funde-se numa alquimia poética do movimento natural de quem observa.

    Não me agrada a idéia de um observador que não interfere. Olhar que percebe é o olhar que se compromete e que se apaixona, e como diria você Albano, uma paixão achada é uma paixão perdida. Um pouco de dor, um pouco de amor, um pouco de qualquer coisa que não a tristeza da incompreensão. O poeta é uma metáfora cotidiana do observador, digo, poesias são metáforas de um observador. Cotidiano é uma coisa sublunar. Observador não se percebe em palavras, mas em ênfases... que triste as coisas sem ênfase, como diz nosso amigo Drummond, que por vezes se encontra em nossa mesa, em nossas taças, olhando em nossos olhos e se embriagando junto de nós na nascente do lago - que não significa origem, mas um mover-se infinito em nossa finitude, eternizado na lembrança e perpetuado pela derme das palavras que hoje se inculcam em nós. Que belo o navegar desse navegante observador chamado Warat, desse lunático chamado Albano, lobo uivante do cosmos. São comitentes de palavras belas e que não são as mesmas desse rito diuturno, nem comportam tudo, senão o nada, que diz muito mais que qualquer daquilo dito na linguagem racionalista.

    [...] dar e repartir até que os sábios tornem a gozar da sua loucura e os pobres, da sua riqueza – Zaratustra.

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  2. Depois dessas palavras do Boy o que eu deveria dizer?
    Apenas que nós somos todos lobos, que ao invés de lamber as suas cicatrizes celebram-as. Orgulhosamente mostram todas as batalhas que perderam, porque elas foram as que os ensinaram a uivar.
    Um beijo meu,
    Gabe

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