29 de set de 2009


O amor, uma experiência... da linguagem
PARTE II
Albano Marcos Bastos Pêpe

No Livro VIII da “Ética a Nicomaco”, Aristóteles assim começa a descrever o amor na perspectiva da filia, a amizade: “Nossa tarefa a seguir será tratar da amizade, pois esta é uma virtude, além do que constitui uma das exigências mais imprescindíveis da vida – ninguém, com efeito, optaria por viver sem amigos, mesmo que possuísse todos os outros bens (...) Por isso louvamos os homens que amam seus semelhantes (...) e se os homens são amigos, não há necessidade de justiça entre eles, ao passo que ser meramente justo não basta, não dispensando um sentimento de amizade. Na verdade, a forma mais elevada de justiça parece conter um elemento de amizade”.
Neste relato me faço acompanhar do Estagirita para juntos fazermos mais um experimentum linguae, desta feita vinculando o amor com a amizade, com um sentimento que pressupõe desde sempre a existência de um ou alguns outros. A amizade como queremos abordá-la, resulta do reconhecimento de outra pessoa através da boa vontade ou afeição, notadamente quando se dá a reciprocidade, quando uma predisposição instala-se como uma deferência. “A amizade entre os seres humanos, portanto, requer que estes (a) sintam afeição (boa vontade) recíproca, ou seja, queiram o bem um do outro, (b) estejam cientes (reconheçam) da afeição um do outro e (c) a causa ou fundamento de sua afeição tem que ser uma das qualidades amáveis (bom, prazeroso e agradável e útil)”, faz questão de salientar o velho peripatético nas nossas caminhadas em torno do lago.
Portanto, nesta abordagem da experiência da linguagem, estendemos rizomaticamente o conceito a outros conceitos para, finalmente alcançarmos o plano da vivência, aquele onde a Palavra significa a via de acesso para os diversos planos da realidade e quiçá, do real. Distanciamo-nos um pouco, visto que tanto Aristóteles quanto eu, temos ritmos próprios de caminhar e pensar, e isso não nos preocupa porque, ao final das contas somos amigos. E nesta “andança solo”, me volto recorrente para Kant que, por sua vez, provoca com a questão da “natural insociabilidade social da espécie humana. Segundo ele, precisamos do outro da espécie para continuarmos a existir como humanos. Fico cismando, pensando com meus botões, se é que eles existem, entica Descartes. A evolução humana em direção a sua humanidade depende do viver coletivamente entre seus pares. Concordo com o sábio de Konisberg: eis um elemento a mais para referendar a questão da amizade colocada pelo meu companheiro de caminhada. E como caminhar juntos? Como superar os temores naturais em relação ao outro que desconheço e que se me apresenta como uma ameça? Para mim, a resposta mais simples é, construindo solidamente e solidariamente um sentimento de amizade, um sentimento amoroso que pode vincular um e outro em direção ao sempre desconhecido, aos jogos circunstanciais não previsíveis. Para tanto, temos que contar com nossa boa vontade assim como com a do outro. Boa vontade a ser cultivada pela afeição, pelos afetos a serem construídos continuamente e, para tanto precisamos desenvolver o experimentum linguae para além de sua “dimensão perfeitamente vazia”, para além da arte de falar através do silêncio.
Ante o outro, incomodado com sua presença, com a possibilidade de me ver despido para ele, desnudado das armaduras naturais, sinto-me frágil, mas, ao mesmo tempo reconheço uma fragilidade maior: a solidão, a mais absoluta solidão, que ameaça como o Mal de Alzheimer, que me levaria definitivamente ao esquecimento, esquecimento de mim mesmo, do que sou como espécie, do que sou enquanto subjetividade.
Como iniciar o rito da aproximação? Penso no rito do acasalamento das outras espécies, pleno de sentido na escolha dos pares para a fornicação que garante a sobrevivência de cada espécie. Penso nas vozes proferidas que indicam a recepção do outro. Penso os movimentos, os gorjeios, as danças executadas, as lutas entre os pretendentes(muitas vezes mortais, como entre os leões marinhos), nos feromônios exalados. Penso enfim, na cumplicidade de Gaia com tais animais e, às vezes sinto-me órfão de physis. Talvez seja este o preço de deter além da voz, a fala, a linguagem. E muito mais quando ela retêm a possibilidade de ser sem enunciar-se, sendo tão somente sigética, uma construção do silêncio, nela, a linguagem que se constitui na condição única de aproximação com o outro, enquanto lugar de fala e escuta amorosas. Meu corpo provavelmente não exala feromônios, e se faz, nós humanos não nos apercebemos de seus odores, seus cheiros, suas magias.
A construção de filia, a amizade depende única e exclusivamente da boa vontade, como me relembra Aristóteles ao voltar a caminhar ao meu lado. “Ora, (diz ele) são aqueles que querem o bem de seus amigos em favor de seus amigos que são amigos no sentido mais pleno, visto que se amam por eles mesmos, não acidentalmente (...) Essa forma de amizade é perfeita seja do prisma da duração, seja daqueles demais atributos da amizade e em todos os aspectos cada uma das partes recebe da outra benefícios idênticos ou similares, atitude correta que se espera de amigos”.
Após escutar tais argumentos, reconcilio-me com physis ao perceber que ela dotou-me de atributos que, se desenvolvidos com o desprendimento necessário, que coloco como dever, como boa vontade, posso caminhar em direção ao outro e, em um movimento harmônico me permitir sua aproximação amorosamente, conciliando, quem sabe, o experimentum linguae, com minha condição de, ao falar ser realmente um criador de mundos.
O Estagirita e eu nos distanciamos. Ele, de volta à sua Grécia, à Estagira. Eu, de volta à minha Itaara e à Nascente do Lago.

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