29 de set de 2009


O amor, uma experiência... da linguagem

Provocado pelos looongos textos que o Warat tem escrito nos últimos três dias, por força de ofício, fico a pensar e a reconhecer o que já sei desde muito: sou parco com a escrita e de uma loquacidade muitas vezes irritante. Portanto creio que serei breve em algumas considerações excêntricas sobre o tema que nos tem ocupado, ora com maior intensidade, ora com menor intensidade.
Parto de algumas premissas, algumas já abordadas, outras provavelmente não:
1. amor incondicional –
Conforme já notifiquei ao público que visita meu fotolog, acredito na existência de um sentimento (por falta de uma palavra melhor) que é desenvolvido pelas fêmeas das diversas espécies animais (inclusive a mulher) em relação aos seres que são gerados por elas. Condutas que podem ser observadas como cuidados, atenção, dedicação, desprendimento, proteção (muitas vezes colocando em risco a própria vida). Enfim, ações típicas dos animais que instintivamente preservam suas espécies. Afora a espécie humana, as demais não definem tais atos, simplesmente os cometem, garantindo a existência de gerações vindouras. Assim o farão a filha, a filha da filha e assim por diante, sem palavras, sem exemplos a serem seguidos, sem orientação da comunidade a quem pertencem. No caso das fêmeas humanas, possibilidade da reprodução é mediada pelas palavras que dão ou não sentido à ação reprodutiva. Coisas tipo realização pessoal ou não; relações conjugais ou não; convenções sociais ou não; interesses pecuniários ou não; uma noite de desatinos ou não; um impulso amoroso ou não (neste lugar é onde começam as questões, os problemas e as definições do que seja a procriação como ato amoroso com um outro ser, nomeado o amado, o único, pelo menos naquele átimo)
Do amor instintivo pela cria, passa-se para o amor não instintivo pelo outro, convêm salientar, o que não foi originado em seu útero (por favor, nada de teses edipianas, jocastianas, etc.). Aí começa o busílis, a confusão que parece não ter fim e, acredito nunca terá, pelo menos enquanto esta palavra constar nos dicionários e nas “cantadas” exercitadas por todos nós, humanos. Bem, a partir deste momento uma nova figura emerge, a do homem, é claro. Eu Falava de uma manifestação típica do sexo feminino, o sexo que é capaz de desenvolver uma gestação onde um outro ser desabrocha ao abrigo de um útero apoiado num corpo capaz de realizar tal façanha. Mas dentre os motivos simbólicos da reprodução feminina, eis que surge o homem, sujeito e objeto do sentimento dito amoroso. Simplificando, o reprodutor (assim como os machos das outras espécies), o que contribui com o espermatozóide para fazer com o óvulo uma junção que viabiliza o embrião, futuro ser humano. Neste momento, por estas contrariedades da vida moderna, convêm salientar que o ato sexual pode ser dispensado, assim como a presença do reprodutor no ato da procriação, ou quem seja ele enquanto pessoa. Para tanto, existem as tão conhecidas técnicas de inseminação artificial já consagradas nas práticas da reprodução assistida.
Portanto, o desejo da procriação pode dispensar o desejo amoroso, mas ele persiste no imaginário popular. Ter um filho com quem se ama é o ápice da felicidade, diriam uns e umas, antes dos movimentados processos judiciais, tendo em vista a partilha de bens, a pensão alimentícia e de quem vai ficar com quem, residindo ou nos finais de semana e nas férias (não mais conjugais, como costuma acontecer festivamente). Mas enfim, a palavra amorosa está inscrita nesta modalidade de justificativa da reprodução.
Amar, tendo o que como meta a procriação, a formação de uma família (célula mater da sociedade, como o dizia Rui Barbosa), o viver de amantes que juram estar juntos até que a morte os separe, constitui-se hoje numa fantasia já evanescente, desprovida de sentido, que durou no mundo ocidental pouco mais de dois séculos. E que levava como inscrição o nome de amor eterno, implicando matrimônio, com direito às cerimônias religiosas e civis, incluindo como bonificação, a lua-de-mel (neste momento me vem à cabeça, não sei por que, as palavras do poeta: “ai que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”). Tomemos isto talvez, como um pequeníssimo hiato da nossa espécie no mundo ocidental, facilmente esquecível. Algo como o romantismo: alguém se lembra do romantismo, a não ser como uma fase da literatura ocidental?
Concluo este momento citando Aristóteles, que no De Anima, trata da amizade, da filia. Importa-me tal citação porque ela inclui o conceito de amizade conjugal. Segundo ele: “a amizade conjugal parece existir por força do instinto, uma vez que o ser humano é, por natureza, um animal que acasala, ainda mais que é um animal político, na medida em que a família é uma instituição mais antiga do que o Estado e a proliferação uma característica mais geral na vida animal. Assim, enquanto no que tange às outras espécies animais, a união dos sexos visa apenas a perpetuação da espécie, os seres humanos vivem juntos não apenas para a perpetuação da espécie, como também para prover o que é necessário à vida. (...) Consequentemente, a amizade conjugal parece ser uma combinação de amizade baseada na utilidade e amizade fundada no prazer”. Seria esta uma definição razoável de amor? Caso estejamos de acordo com o Estagirita, a questão está encerrada. Caso não, continuemos a argumentação.
Até a próxima.
Albano Pêpe

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